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Todo foco

E lá se vai você, mais uma vez.

Outra vez depois daquela.

Deixando no escuro das horas o silêncio e os olhos baixos.

Escapando enquanto a madrugada espia a manhã.

É a covardia muda alardeando a amargura que virá.

É o desejo abolido sem pesar.

Outra vez e lá se vai.

O amor que nunca foi meu.

O desgosto que nunca foi seu.

Omitindo a razão do ato impensado.

De fugir sem sofrer.

De ter sem ter.

Até clarear o dia e perceber a alma vazia.

Meu erro

“Você diz não saber o que houve de errado e o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria.”

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Surdo

Hoje doeu tanto que eu chorei sem música.

Sabe?

É sempre assim.

Ora par, ora ímpar.

As lágrimas são passageiras. Não se chora o tempo todo.

A alegria também. Não perdura a todo instante.

E quando não há riso ou choro, há essa existência morna que só distrai o tempo, o coração.

Não aquece, nem esfria. Não preocupa, nem incomoda.

Pensamentos livres, atuações efêmeras e pretensões mutáveis.

Sem amarras. No peito ou na cama.

É o mar navegável que leva a vida sem norte.

Uma vida anestesiada.

À espera do tormento bom que, de certo, virá.

Para sacudir o sossego e fazer a revolução.

Um liquidificador de sentimentos a provocar noites insones e sabor.

Pelo sim. Pelo não.

Quem sabe…

Aí a vida vira outra que segue ora chorando, ora sorrindo.

Outros Finados

E foi assim, como se nada tivesse acontecido, que esqueci.

Foi como se te ter sem prever fosse um frenesi.

A roupa, o sapato, o perfume, escolhidos pra outra.

O abraço, o beijo, a língua, o gemido, também não eram seus.

O coração estava no cais e a alma tinha voltado pra minha casa.

A vida é que mudou o rumo de repente e voltou na contramão.

Exumou a intimidade perdida e trouxe outras sensações.

Mas nada mais de mim te pertencia e nada mais doeu.

Nenhum território foi conquistado.

Nenhuma guerra foi travada.

Ninguém morreu.

E o dia dos finados não foi celebrado.

Foi como cair, sem machucar.

Foi como sentir, sem incomodar.

Foi como rezar, antes de trepar.

Foi como desaparecer, antes de gozar.

Foi como esquecer, sem nunca amar.

Foi como sofrer, sem nunca chorar.

E foi assim, como se o meu sim não fosse senão apenas outra forma de partir.

finados

Respiro

Não te quero isto ou aquilo

Baixa ou alta

Te quero uma esquina

Onde eu vá virar a vida e vê-la

De dentro pra fora

Te quero um navio que me leve

Uma serenidade que me altere

Não sonho com uma puta

Uma sensualidade vulgar

Um prazer estúpido

Te quero puramente safada

Uma lascívia discreta

Um gozo bonito

Em meio às pernas que me abracem

Não espero o sonho perfeito

A paixão com o dedo no gatilho

Te espero com todos os seus desertos

Sem nenhuma urgência aflita

Sem desatino  

Sem desastres

Porque não te quero 2 minutos

Te espero um pouco mais.

 

Alter vida

Eu queria apenas não lembrar o desgosto

Aquilo que já não é mais belo

Aquilo que já não tem mais graça

O dia se acinzenta com a chuva que cai desesperada

é a tristeza em seu sentido literal e des – figurado

e eu não sinto mais nada

Apenas o vazio e o pesar de não sentir

É um desperdício de vida

de talento

de esperança

 Uma perda irrevogável e perene

e é essa a razão do meu vácuo

Da minha necessidade de ser egoísta

assumir meu posto final

para desprender o mundo que fica estático

Ser personagem de mim mesma das minhas histórias sempre inacabadas

Com o conforto de uma borracha

para apagar os erros dos parágrafos imperfeitos

Queria simplesmente desatar esse nó que aborrece

não é que eu vá resignar

a vida que me leva é mais forte que eu

e eu sou mais fraca que a vida que se impõe diante de mim

“Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. “

Mas a impressao que tenho aqui dentro é que eu me sentaria ao lado dela, então ela me explicaria pacientemente algumas de suas poesias que eu não entendo, no final da conversa colocaria minha cabeça gentilmente no seu colo, me faria um cafuné e recitaria versos inéditos pra mim…seria algo assim…cândido e terno.

9 Luas

Assinei com minhas lágrimas cada verso que lhe dei, como se fossem confetes de um carnaval que não brinquei. Mas a cabeça apaixonada delirou, foi farsante, vigarista, mascarada. Foi amante, entregando-lhe outra amada. Foi covarde que amando nunca amou.

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