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Criança, eu me destacava pela coragem de escalar muros e correr em lajes, saltar de telhados nos montes de areia e chegar à copa das árvores sem temer a queda.

A vida foi se encarregando de me acovardar. A menina audaz cedeu lugar à adulta medrosa. Os anos trouxeram os primeiros cabelos brancos e levaram embora a bravura. Já não grito como antes, nem a altura eu enfrento mais… Em algum momento, alguma coisa mudou e, quando eu mais precisei, faltou o sopro para me impor e seguir, faltaram palavras, faltou culhão, faltou vida.

Na perenidade dessa existência, o rato enxotou o gato que agora abaixa os olhos e segue manso, com sonhos à míngua, sem vontades, sem certezas, sem as 7 vidas que se perderam entre um salto e um tombo.

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Porque era preciso calar. Absorver e concentrar as energias para, então, falar. Um inverno de sentimentos, palavras e sentidos. Era preciso emudecer, totalizar o interior. Ser repetitiva, mas sem repetir. Repartir outras histórias e desenhar os personagens que moram apenas nas ideias. Dar a eles um sopro de vida para trazer à tona o que vive, ainda, afogado. Já é hora de encontrar tempo para esvaziar a alma.

Os lençóis estavam postos a te esperar. 

A timidez do convite, o encanto do aceite, culpa da Stella, talvez…

As paredes alvas e desnudas, as luzes frias, testemunhas silenciosas do primeiro querer.

Os beijos se propagaram no escuro e minutos depois foi preciso parar pra respirar e admirar o corpo lânguido posto sobre mim.

Era preciso fotografar os instantes, transformar em memória todos os sentidos daquela madrugada.

O embaraço dos abraços, o cheiro aceso na pele, o fogo fervendo nas veias.

As mãos que se excitavam nos contornos dos seios, das coxas, dos cabelos.

Seu ventre estreito e loiro, os olhos e o olhar, o som do seu sorrir.

É… eu tinha que calar e sentir e entender que já não cabia mais negar…

Já era amor e era você.

“O Amor, que não ousa dizer seu nome,”

Bateu-lhe à porta, ao acaso, um dia.

E ele, inebriado pela cotovia

(que paira à janela, mas depois some…),

Sentiu crescer, súbito, na alma, u’a fome

De algo que, até então, desconhecia.

Desejo… estranheza… culpa… agonia…!

Desce aos umbrais, na angústia que o consome! …

porém, depois das lágrimas enxutas,

Chamou a cotovia, deu-lhe frutas,

E sorveram, um no outro, a própria essência.

E ambos, nessa atração de semelhantes,

Num cingir de músculos, os amantes

Ergueram-se aos portais da transcendência.”

Para celebrar meu amor e a primeira vitória dos iguais…

Por você eu mudei o rumo do olhar

Infinitas horas pra te amar

tardes quentes pra te despir

dias encantados pra te brindar

um Pacífico inteiro pra te navegar…

Me prendi por sua vontade

rezei pra Deus te guardar

noites insones pra te velar

um palácio pra te construir

canções de amor pra te cantar…

Com você eu sonhei o mundo e o futuro

músicas do dia pra te lembrar

escrevi pra te ganhar

brincadeiras pra te divertir

cresci uma cordilheira pra te alcançar…

É o seu caminho pra seguir

mais uma dança nossa pra ensaiar

outros verbos pra rimar

porque só você me fez

te olhar sempre e pensar

“eu me apaixonei tudo outra vez”

O banho não esquentou e o vapor não me deixou escrever no vidro o seu segredo que sempre tem que desaparecer de todo traço.

Foi preciso falar em voz alta e quase gritar pra você não me ouvir. Pra você, outra vez, dar as costas e fugir.

Outra manhã sem que nada mais despedaçasse meu coração, as ruas vazias da sua saudade e o assobio sombrio da nossa música.

Foi preciso correr ladeira acima e sufocar pra, outra vez, não te alcançar.

Era o sonho do barulho sem fim, das trovoadas da nossa chuva à espera de refúgio pra viver à margem da minha curva na sua estrada.

Não era pra acontecer. Eu não precisava sentir. Você não podia esquecer. A água não devia esfriar.

Toda benção depois de domingo pra quem não sabe rezar. Só se ama se sofrer. Todo verão só sabe arder. Você só me ganha pra perder.

Outra charada pra te guardar.